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Professor José Goldemberg |
"PERIGO: A DILUIÇÃO DO MÉRITO COMO
FATOR PRIMORDIAL DO SUCESSO"
Às vezes eu temo soar como um disco
quebrado aqui nestes meus PENSAMENTOS semanais. Digo isso com respeito às
mazelas principais que afligem o nosso país na minha modesta opinião, a
política falida de massificação do ensino dos últimos 10 anos, a falta de
seriedade imersa na cultura Brasileira,
a consequente associação do sucesso ao aproveitamento do próximo, e a
maneira sempre jocosa pela qual refere-se ao mérito comprovado e à competência
demonstrada, motivos de chacotas irreverentes e piadinhas irresponsáveis. Tudo
isso levando a uma diluição do mérito como fator primordial do sucesso.
Não vou
aqui repetir textos passados desta coluna, e o leitor ou leitora que estiver
interessado(a) pode pesquisa-los no meu blog: www.pensamentoscs.blogspot.com Mas de quando em quando, como aconteceu há
algumas semanas nesta coluna intitulada "ACORDA,
BRASIL!... DIZ UM ECONOMISTA EXPERIENTE" em relação ao economista Ricardo
Amorim, é sempre confortante quando vemos uma personalidade de destaque
concordar com as nossas posições. E com relação ao tema desta semana, isso
aconteceu novamente, agora em relação ao eminente Físico Brasileiro José
Goldemberg, Professor Emérito da Universidade de São Paulo (USP), Reitor da USP
(1986-90), Secretário Federal de Ciência e Tecnologia (1990-91), Ministro da
Educação (1991-92), e recebedor da Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito
Científico (1995). Quando frequentei a Escola Politécnica da USP (1967-71),
tive o privilégio de ser aluno do Professor Goldemberg na cadeira de Física.
Vejam-no discorrer sobre o tema em questão em artigo publicado no jornal O
Estado de São Paulo em 19/08 p.p.:
“Suficiente
já foi dito sobre as propostas de plebiscito, democracia direta e outras que
foram feitas pelo Poder Executivo em respostas às grandes manifestações
populares de junho. Várias delas são notoriamente atabalhoadas e demagógicas e,
felizmente, estão sendo gradativamente abandonadas, à medida que o bom senso se
impõe. Há, porém uma consequência duradoura e deletéria da orientação política
geral que se implantou há cerca de dez anos no País, que é a de tentar agradar
a todos os setores da sociedade e cooptá-los em nome do sucesso eleitoral e da
permanência no poder.
O que é alarmante é esse comportamento estar atingindo
agora as melhores universidades brasileiras. Ora são cotas de diversos tipos
para ingresso nas universidades públicas para compensar discriminações
ocorridas no passado; ora são propostas de eleições diretas para dirigentes
universitários, como se essas instituições de ensino superior fossem clubes
recreativos ou sindicatos; ora é serviço civil obrigatório para resolver os
problemas do precário atendimento médico à população; ora a importação de
médicos - e por aí vai.
O que tudo isso tem em comum é que tenta eliminar algo
fundamental: a meritocracia. Isto é, que a aptidão ou o conhecimento sejam o
critério principal do sucesso, quer na conquista de cargos de direção, quer na
realização de trabalhos técnicos e científicos, no caso das universidades. A
meritocracia foi uma das grandes conquistas da Revolução Francesa (1789-1799),
em que foram eliminados os privilégios da aristocracia. O sucesso posterior de
Napoleão Bonaparte como grande general deveu-se em grande parte à escolha de
oficiais pelo mérito, e não por seus títulos de nobreza, como ocorria antes de
1789. É esse o significado da palavra igualdade na trilogia que caracterizou
aquela revolução - liberdade, igualdade e fraternidade. O que se almejava na
ocasião era igual oportunidade para todos.
A mesma característica têm as
grandes escolas de ensino superior criadas na França pós-revolução, como a
Escola Politécnica de Paris, a Escola Normal Superior e a Escola Nacional de
Administração, que formam até hoje os quadros dirigentes franceses e nas quais
o ingresso é feito exclusivamente pelo mérito. Vale a pena mencionar aqui que a
ideia básica da meritocracia foi incorporada até por Karl Marx, ao esboçar como
seria um mundo onde a exploração do trabalho pelo capital fosse eliminada: um
mundo em que "cada um daria de acordo com suas habilidades e cada um
receberia de acordo com suas necessidades".
A meritocracia é um princípio
que sempre esteve presente no desenvolvimento da ciência, área em que ela é
soberana e o uso de títulos e de poder nada pode contra a evidência. A História
está cheia de episódios em que autoridades tentaram suprimir ou manipular a
evidência científica. Todas essas tentativas falharam. As grandes universidades
do mundo seguem o mesmo princípio e as brasileiras que pretendem atingir um
nível comparável ao delas não poderiam adotar critérios diferentes.
O que está
ocorrendo no Brasil, contudo, é que existem visões conflitantes dentro do
próprio governo federal quanto ao papel das universidades públicas. Por um
lado, o governo cria programas de incentivo à inovação tecnológica, promove
estágios no exterior por meio do programa Ciência sem Fronteiras e de outros
que se destinam a melhorar o desempenho das universidades, essencial para
aumentar a competitividade econômica do País. Por outro, cria cotas sociais e
raciais, que no curto e no médio prazos tendem a baixar o nível dessas
universidades, que já deixam a desejar em muitas áreas.
Introduzir cotas nas universidades públicas
brasileiras como instrumento para compensar/corrigir discriminação racial ou
social pode ser mais fácil e menos oneroso do que resolver o problema
fundamental, que é tornar o ensino médio melhor, o que daria mais oportunidades
aos estudantes de menor renda. Mas essa é uma falsa solução. O que a
experiência nacional e internacional da introdução de cotas nas universidades
nos diz é que elas não garantem que os alunos cotistas tenham o desempenho
esperado, encorajam a evasão e, em particular nas áreas mais competitivas
(medicina, engenharia e direito), podem levar a uma redução da qualidade dos
cursos.
Além disso, estabelecem um novo tipo de discriminação: contra o branco
pobre (em relação ao negro pobre) e contra o pobre (branco ou negro) cuja
família economizou para mandar o filho à escola privada a fim de prepará-lo
melhor para os vestibulares. Há um documento recente sobre Ações Afirmativas
nas Universidades Brasileiras, preparado pela Academia de Ciências do Estado de
São Paulo, que discute essas questões.
Outro problema é a gestão das universidades públicas, ameaçada pela
escolha de reitores por eleições diretas. Universidades têm autonomia didática,
científica e administrativa, como determina o artigo 207 da Constituição da
República, mas não são soberanas, sendo fundamental que não percam de vista os
interesses gerais da sociedade. A eleição direta de reitores pela comunidade
universitária implica sério risco de tornar as universidades prisioneiras de
demandas corporativas. Essa é a razão por que os reitores são escolhidos pelos
governadores dos Estados nas universidades estaduais e pela presidente da
República no caso das federais, em listas preparadas pelos conselhos
universitários, nos quais os professores titulares são a maioria e os alunos e
funcionários estão amplamente representados. Introduzir eleições diretas cria
também o não menor risco de as universidades deixarem de cumprir suas funções
básicas: o ensino, a pesquisa e a prestação de serviços à sociedade.”
A política assistencialista do governo federal dos últimos
10 anos já impingiu ao Brasil uma geração de preguiçosos incompetentes. Se não
resgatarmos o significado do mérito comprovado e da competência demonstrada, e
os restabelecermos como fatores primordiais do sucesso, estaremos colocando o
último prego no caixão, a “pá de cal” no país do futuro que nunca chega. Boa
semana a todos.
O autor é engenheiro, doutor em ciência da computaçao,
professor universitário, e pode ser contactado através do e-mail claudio.spiguel@gmail.com).
(PENSAMENTOS No 26/2013 – Jornal da Região – ANO XX, No 1039 – 23/08/2013).